Julyelle Conceição

Psicóloga, Terapeuta Sexual e de Casais

Relacionamento aberto, existe traição?

Para respondermos a essa pergunta, é importante, antes de tudo, entendermos o que é um relacionamento aberto. O relacionamento aberto é quando duas pessoas possuem um relacionamento amoroso e decidem se abrir para o envolvimento físico e, somente físico com outras pessoas. Ou seja, a abertura é sexual e não amorosa, diferente do relacionamento monogâmico no qual existe um combinado de que um é a única parceria afetivo-sexual do outro.

Meu parceiro ou parceira manifestou o interesse em relacionamento aberto, como saber se isso é pra mim? Vamos lá! Algo importante a ser considerado quando se pensa no relacionamento aberto como possibilidade é se de fato você quer tentar essa configuração de relacionamento ou se está cedendo somente para agradar a parceria, tentando salvar a relação. Lembre-se: relacionamento aberto não é tábua de salvação! Na verdade, diferente do que muitas pessoas imaginam, o relacionamento aberto pode dar bastante trabalho assim como o monogâmico no que se refere a importância da comunicação e o estabelecimento de regras e combinados. Há casais, por exemplo, que combinam que os encontros com outras pessoas nunca serão na casa do casal, o que desencadearia os sentimentos de tristeza e raiva, além de uma sensação de invasão a um lugar sagrado. Outra regra possível é a de que esses encontros nunca  acontecerão aos finais de semana,  dias reservados para momentos do casal. Há quem queria saber detalhes sobre os encontros sexuais da parceria e, inclusive, se beneficie dessas informações como forma de inovar na relação do casal e há quem deteste a ideia. Um outro combinado bem importante é o uso de preservativo nas relações de modo a evitar comportamentos de risco que possam prejudicar todas as pessoas envolvidas. E por aí pode haver uma lista sem fim tópicos a serem considerados para a satisfação do casal.

Sugiro que essa decisão não seja tomada às pressas. Até porque esse ainda é um assunto tabu, difícil de entrar justamente porque a sociedade, de maneira geral, entende que o relacionamento aberto não é normal e que considerar esse tipo de relacionamento é falta amor. Então pare e pense: o que é amor pra você? Amor e sexo andam juntos ou podem ser separados? Você realmente quer tentar essa configuração de relacionamento ou se está cedendo somente para agradar? Que regras seriam importantes pra você numa relação assim? Que sentimentos podem surgir a partir daí? Insegurança, medo de perder a parceria, ciúmes ao ponto de querer controlar o outro? Tudo isso deve ser bem pensado e bem sentido. Ou seja, entre em contato com as suas emoções nesses momentos de reflexão. Reflita, sinta, fale, mas também ouça. Conversem! 

Um outro fator interessante dessa configuração de relacionamento é que ambos têm o  direito de se envolver com outras pessoas, o que não configura uma obrigatoriedade. Quer dizer que pode acontecer de um dos dois não ter esse interesse, e tudo bem! Aqui entram as individualidades: o desejo de um pode não ser necessariamente o desejo do outro. 

Por fim, leve em conta, também toda a sua aprendizagem sobre relacionamentos, casamentos, amor e sexo. Você já se perguntou se a forma como você se relaciona te traz felicidade? Se você vive a monogamia e entende que ela te traz felicidade, a parceria precisa respeitar e aceitar a sua decisão. Por outro lado, vejo que muitas pessoas tentam se encaixar numa relação monogâmica tão somente porque cresceram ouvindo falar que essa é a maneira certa de se relacionar, o dito normal, sem qualquer questionamento de como se sentem nesse tipo de relação.Então passam uma vida toda sofrendo e tentando se encaixar nesse jeito certo, enquanto desejam e satisfazem seus desejos de estar com outras pessoas, sendo infiéis quando poderiam repensar suas relações. É claro que repensar e reconfigurar relações, dá trabalho! Assim como lidar com os julgamentos, quando se procura viver de uma forma diferente do “normal”. Mas aí é uma questão de escolha: trabalhar para rever a forma de se relacionar com ética e respeito a si e a pessoa que está com você ou trabalhar para esconder os momentos de infidelidade. Eis a questão! 

Assim, por ser baseado no consentimento das partes envolvidas, o relacionamento aberto não é considerado traição. É simplesmente, uma outra forma de viver, amar e se relacionar.

Dica de livro: Ética do amor livre: guia prático para poliamor, relacionamentos abertos e outras liberdades afetivas de Janet W. Hardy e Dossie Easton. 

Dica de série: Wanderlust: Navegar é preciso – Netflix.

Referência: Hardy, J.W., Easton, D. Ética do amor livre: guia prático para poliamor, relacionamentos abertos e outras liberdades afetivas. 

Relacionamento aberto, existe traição?

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