Segundo IBGE (2020), a queda de natalidade é uma tendência no Brasil e está associada ao crescimento da autonomia feminina nos últimos anos que leva a contestar a ideia de que a mulher só é completa se casada e com filhos – conceito de maternidade compulsória
A ideia de não querer ter filhos, pode parecer algo novo, porém já no Brasil do final do século XVIII muitas mulheres, sem ajuda financeira e/ou emocional por parte do genitor, escolhiam entregar a criança aos cuidados de outras pessoas ou cometiam o infanticídio. A diferença é que hoje, outras variáveis como a própria falta de vontade em exercer a maternidade e o desejo de viver outras experiências, ganham espaço.
É como diz a música de Caetano Veloso: “Cada um sabe as dores e delícias de ser quem é.” Assim, se houve um tempo em que só se falava das delícias da maternidade, hoje estamos em outro momento no qual também tem se tornado evidente os desconfortos e dificuldades do papel de mãe. “Trabalhe como se não tivesse filhos e seja mãe como se não trabalhasse fora,” eles disseram. Essa é a mensagem que as mães recebem, quando, por exemplo, são questionadas em uma entrevista de emprego sobre quem ficará com seus filhos. De forma geral, esse tipo de questionamento não é apresentado aos pais, o que sugere uma maior cobrança das mulheres quando se trata do cuidado parental. E, falando em cobrança, as mulheres que escolhem não ser mães também sabem muito bem o que significa se sentir cobrada. Quais são as consequências de não querer ser mãe? Como as pessoas reagem a uma mulher que faz essa escolha? Como as pessoas tratam uma mulher sem filhos por opção?
De maneira geral, percebo um espanto frente ao desejo de não querer ter filhos, muito relacionado à ideia de que toda mulher, pelo simples fato de ser mulher, nasce com instinto materno que, em algum momento vai despertar esse desejo ao longo da vida. Mas, e com o homem, como é? Eu nunca ouvi falar nada parecido sobre os homens, acredita? Temos aqui uma questão clara de desigualdade de gênero.
Como consequências à saúde mental:
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Familiares, amigos, colegas de trabalho) |
Mulher |
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Invalidação da escolha feminina: julgamentos, incompreensão, tratá-la como se estivesse cometendo um erro digno de arrependimento no futuro. |
Sentimento de raiva por parte da mulher frente à invalidação da sua escolha e de seus sentimentos |
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Conflito: as pessoas próximas discordam e tentam convencê-la a mudar de ideia. |
Sentimento de ansiedade próximo a essas pessoas por prever o possível conflito. |
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Isolamento: afastamento tanto por parte dessa mulher de relações que ela entendem como pouco respeitosas e compreensivas, como de pessoas queridas que, infelizmente, nutriram expectativas sobre se tornarem avós, tias, tios, dindas desse filho que não está nos planos dessa mulher |
Sentimento de tristeza e solidão. |
Vale lembrar que escolher sobre querer ou não ser mãe é um direito reprodutivo e impacta diretamente na sua sexualidade.
Então o que eu proponho são mais reflexões sobre o tema e que você mulher possa se tornar consciente do seu desejo ou não desejo em maternar. Para que você quer ser mãe? Para que não quer ser mãe? Torne-se consciente, conecte-se com seus sentimentos e escolha, de coração aberto. E para lidar com as consequências depois da escolha, assim como vale ouro à quem escolhe ser mãe contar com uma rede de apoio, o mesmo vale para você que não quer maternar. Procure estar rodeada de pessoas que procuram te entender, te acolher e te aceitam e amam incondicionalmente, independente de suas escolhas.
Referências:
Silva, J. Melo, M. de F. A. de Q. Rev. Polis e Psique, 2020; 10(1): 85 – 106
Rico, V.V., Golfeto, R., Hamasaki, E. I. de Mores. Sentimentos. In Hübner, M. M. C., Moreira, M. B. (2012). Temas clássicos da psicologia sob a ótica da análise do comportamento. Rio de Janeiro : Guanabara Koogan, 2012.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. (2020). Censo demográfico apud Hidasi, S.Z. e Gonzaga. A.T.S. (2022).A visão de mulheres que escolheram não ter filhos: um estudo psicossocial Disponível em: http://ojs.unialfa.com.br/index.php/psicologiaemenfase/article/view/179/108. Acesso em 04.05.2022


