Julyelle Conceição

Psicóloga, Terapeuta Sexual e de Casais

Mulher negra, corpo e sexualidade

O racismo estrutural tem sido tema cada vez mais comum nos últimos anos no Brasil. Para entendermos um pouco melhor como esse fenômeno atinge a sexualidade da mulher negra é imprescindível resgatar a história do nosso país. Fato importante dessa história foi a vinda de pessoas negras para serem escravizadas. As negras e negras não eram considerados pessoas, mas seres sem alma, com papel exclusivo à servidão. E, enquanto o homem negro servia em atividades braçais como na lavoura, à mulher negra, era atribuído o papel cozinhar, cuidar das crianças e servir sexualmente ao seu senhor. A partir disso, nasceu e permanece o estereótipo de que a mulher negra é boa de cama e fogosa, o que contribui para a sua objetificação: uma mulher que serve para o prazer sexual, sem ser digna de afeto. Acompanhando esses estereótipos, temos ainda o de negra raivosa e agressiva. Mas como não reagir dessa forma, diante de tamanha violência?

Quando atentamos à raça, que é designada a partir de uma série de características pelas quais as pessoas são socialmente reconhecidas e identificadas, como cor da pele, cabelo, formato da boca e do nariz e relacionamos com o conceito de beleza atual, é comum que as características consideradas bonitas não compreendam as características das pessoas negras. Inclusive, há algum tempo era difícil encontrar produtos próprios para o cabelo afro e para a pele, bem como maquiagens que contemplassem essas características, tamanha a sua desvalorização. Isso tem mudado nos últimos anos, com um mercado que passou a reconhecer e, assim impacta na valorização dessas características e a autoestima do povo negro no que se refere a estética.

Quantas vezes, você mulher negra, ouviu: “- Ah vai arrumar esse cabelo! ” Como assim arrumar? Arrumar o que? O que tem de bagunçado ou estragado nele que precisa consertar? Quanto mais crespo o cabelo menos bonito. E quanto mais retinta, mais escura a pele, menos beleza se vê nela.

Precisamos urgentemente desconstruir esses conceitos, valorizando as características físicas e jeitos de ser da mulher negra para sua saúde mental, física e afetivo-sexual.

“Passarinho de toda a cor, gente de toda cor,

Amarelo, rosa e azul,

Me aceita como eu sou…”

(De toda cor – Renato Luciano)

Dica de livro: Quarto de despejo

Dica de filme: Madame Walker e Felicidade por  um Fio – Netflix,

Referência: DIONÍSIO, P. A sexualidade da mulher negra e sua subjetividade. In: RODRIGUES JR., O.; ZEGLIO, C. Estudos sobre sexualidade. São Paulo: Instituto Paulista de Sexualidade, 2019.

DELAS IG (2019). Casais inter-raciais enfrentam preconceito: “Vai mesmo se casar com essa preta?” Disponível em: https://delas.ig.com.br/comportamento/2019-08-07/casais-inter-raciais-enfrentam-preconceito-vai-mesmo-se-casar-com-essa-preta.html . Acesso em: 08.set.2020

Mulher negra, corpo e sexualidade

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